Ana-b92 reviewed Swann's Way by Marcel Proust
A madeleine e o labirinto: meu No Caminho de Swann
4 stars
Ao abrir No Caminho de Swann, senti que não estava apenas lendo um romance, mas aprendendo um modo de lembrar. Em Combray, a famosa madeleine mergulhada no chá aciona a memória involuntária e transforma o passado em presença viva. A cada detalhe, uma calçada molhada, uma igreja vista de lado, o cheiro de quarto fechado, Marcel Proust me ensinou que o tempo não se perde: ele espera num canto do corpo, pronto para regressar quando a atenção acerta a porta.
A primeira parte me deu a coragem de ler devagar. O narrador criança, a tia Léonie, as caminhadas por Méséglise e Guermantes revelam como o mundo social se mistura às paisagens internas. Senti uma alegria tímida ao perceber que a lembrança não é arquivo: é ato, é forma, é música. Na segunda parte, “Um Amor de Swann”, o livro muda de chave e vi Swann prisioneiro de um amor …
Ao abrir No Caminho de Swann, senti que não estava apenas lendo um romance, mas aprendendo um modo de lembrar. Em Combray, a famosa madeleine mergulhada no chá aciona a memória involuntária e transforma o passado em presença viva. A cada detalhe, uma calçada molhada, uma igreja vista de lado, o cheiro de quarto fechado, Marcel Proust me ensinou que o tempo não se perde: ele espera num canto do corpo, pronto para regressar quando a atenção acerta a porta.
A primeira parte me deu a coragem de ler devagar. O narrador criança, a tia Léonie, as caminhadas por Méséglise e Guermantes revelam como o mundo social se mistura às paisagens internas. Senti uma alegria tímida ao perceber que a lembrança não é arquivo: é ato, é forma, é música. Na segunda parte, “Um Amor de Swann”, o livro muda de chave e vi Swann prisioneiro de um amor que fabrica provas, interpretações e cansaços. A lógica do ciúme, sua “estética” própria, me inquietou: a inteligência, aqui, serve ao engano com rara eficiência. Odette é menos personagem do que espelho móvel das projeções de Swann.
A última seção, “Nomes de País: o Nome”, reacende o desejo de viajar e de nomear, como se a linguagem prometesse um acesso privilegiado ao real. Entendi que Proust não oferece trama apressada; oferece método de percepção. As frases longas, a ironia discreta, o rigor com as nuances produziram em mim uma espécie de disciplina emocional: olhar outra vez, por mais um minuto.
Fechei o volume com gratidão atenta. No Caminho de Swann me deu um relógio novo — não para marcar horas, mas para escutar os instantes. E saí com a sensação de que lembrar, quando bem feito, é uma forma exigente de amar.