Nic reviewed Caderno Proibido by Alba de Céspedes
Caderno Proibido
Desde bem jovem eu tenho uma coleção de diários. O último que alimentei com consistência foi escrito por volta de 2015. Posso apenas especular o porquê de meus diários seguintes serem uma série de cadernos irregulares que me empolgam por meia dúzia de páginas. Empilho esses projetos de diários junto com uma série de agendas e outros cadernos que passam a servir como "blocos de notas" -- me alivia pensar que tantas folhas em branco, abandonadas, tem de ter alguma utilidade.
"Caderno proibido", de Alba de Céspedes, é um diário ficcional de uma mulher que se sente confinada aos limites domésticos. Alguém que é mãe e esposa, mas nunca "Valeria Cossati". Mas a vida encontra rachaduras, margens por onde transbordar.
"Às vezes eu precisaria ficar sozinha; nunca ousaria confessar a Michele, temendo desgostá-lo, mas sonho em ter um quarto só para mim."
Para mim, adolescente e jovem adulta retraída, as …
Desde bem jovem eu tenho uma coleção de diários. O último que alimentei com consistência foi escrito por volta de 2015. Posso apenas especular o porquê de meus diários seguintes serem uma série de cadernos irregulares que me empolgam por meia dúzia de páginas. Empilho esses projetos de diários junto com uma série de agendas e outros cadernos que passam a servir como "blocos de notas" -- me alivia pensar que tantas folhas em branco, abandonadas, tem de ter alguma utilidade.
"Caderno proibido", de Alba de Céspedes, é um diário ficcional de uma mulher que se sente confinada aos limites domésticos. Alguém que é mãe e esposa, mas nunca "Valeria Cossati". Mas a vida encontra rachaduras, margens por onde transbordar.
"Às vezes eu precisaria ficar sozinha; nunca ousaria confessar a Michele, temendo desgostá-lo, mas sonho em ter um quarto só para mim."
Para mim, adolescente e jovem adulta retraída, as páginas eram lugares onde eu fazia sentido das coisas. Para muitas Valerias, "tristes, loucas ou más", a escrita era e é uma ferramenta poderosa. Se o diário não é um instrumento de expressão vocal e ampla, não deixa de ser um de autoconhecimento, de expressão voltada pra dentro. De questionamento de pilares sociais antes tomados como infalsificáveis e imutáveis.
Ainda que publicado em 1952, é um livro surpreendentemente atual. As estruturas sociais podem ter mudado, mas não profundamente. Muitas mulheres não sentem mais vergonha de ajudar no orçamento de casa, mas estas ainda discutem a dupla jornada de trabalho. O trabalho doméstico continua sendo função feminina, mesmo que terceirizada para classes mais marginalizadas.
Este é um livro bem fora da curva, incrivelmente bom (o meu favorito do ano até agora). É de se esgotar marca-textos com cada reflexão que ele traz. Cada página é imensamente rica e contundente, ainda que praticamente nada aconteça além de revoluções internas. "Nada" que é "muito".
"Quando comecei a escrever, acreditava haver chegado ao ponto no qual se tiram as conclusões da própria vida. Mas toda experiência minha (...) me ensina que a vida inteira passa na angustiante tentativa de tirar conclusões e não conseguir."