Ana-b92 reviewed Beloved by Toni Morrison
Casa 124, voz que não se cala: minha leitura de Amada
4 stars
Casa 124 não é endereço; é uma cicatriz que fala. Em Amada, Toni Morrison coloca a escravidão dentro das paredes e me obriga a ouvir o que a história costuma sussurrar. Sigo Sethe, ex-escravizada que busca, em Cincinnati, uma vida possível. O passado, porém, não aceita clausura: retorna como assombro, odor, berros — e, um dia, como uma jovem que se apresenta pelo nome que dá título ao livro. Eu a observo entrar e alterar o ar dos cômodos.
Paul D reaparece com sua caixa de lata no peito; Denver, filha de Sethe, deseja futuro mas teme a rua; vizinhos afastam-se; a cidade vigia. A jovem que se diz Amada exige atenção, comida, tempo, memória. A casa engorda de lembranças. Vem à tona o gesto extremo: Sethe preferiu a morte da filha à captura dos caçadores de escravos. Desde então, a pergunta não é apenas moral; é ontológica: …
Casa 124 não é endereço; é uma cicatriz que fala. Em Amada, Toni Morrison coloca a escravidão dentro das paredes e me obriga a ouvir o que a história costuma sussurrar. Sigo Sethe, ex-escravizada que busca, em Cincinnati, uma vida possível. O passado, porém, não aceita clausura: retorna como assombro, odor, berros — e, um dia, como uma jovem que se apresenta pelo nome que dá título ao livro. Eu a observo entrar e alterar o ar dos cômodos.
Paul D reaparece com sua caixa de lata no peito; Denver, filha de Sethe, deseja futuro mas teme a rua; vizinhos afastam-se; a cidade vigia. A jovem que se diz Amada exige atenção, comida, tempo, memória. A casa engorda de lembranças. Vem à tona o gesto extremo: Sethe preferiu a morte da filha à captura dos caçadores de escravos. Desde então, a pergunta não é apenas moral; é ontológica: o que um corpo pode chamar de seu quando já foi propriedade de outro? A resposta não cabe em sentença rápida.
A arquitetura do romance recusa linha reta. Morrison distribui vozes, rasga e recompõe o tempo, troca foco, aproxima canto e prosa. Leio episódios como quem escuta um canto responsorial: a dor de uma fala encontra eco em outra até produzir, não perdão, mas possibilidade de continuar. Rememory — esse reaparecer de coisas que julgaríamos enterradas — vira método de conhecimento. Símbolos insistem: a árvore de cicatrizes nas costas de Sethe, a água, o leite, a comunidade que falha e, depois, aprende a voltar.
Não experimento conforto. Experimento claridade difícil. A linguagem é densa, terrosa, por vezes lírica; nenhuma página desperdiça o peso da experiência. Quando as mulheres da vizinhança oram à porta e a presença se desfaz, compreendo que a cura, se existe, tem som de coro. Fico com o rumor dessa oração e com a certeza de que Amada não é só romance sobre trauma: é exercício de restituição do nome, do corpo, do tempo. E, para mim, leitura que muda o ângulo com que olho feridas que o país — qualquer país — preferiria manter no porão.